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Por trás de cada paella esconde-se uma filosofia culinária milenar. Descubra por que razão Valência protege zelosamente o seu tesouro nacional — e como a preparar em casa.A paella valenciana tradicional, cozinhada em fogo de lenha na sua frigideira de aço polido — Huerta de ValênciaEm Valência, a paella não é apenas um prato. É uma identidade. Come-se ao almoço de domingo, em família, ao som do crepitar do fogo de lenha e ao aroma do alecrim queimado. O que talvez tenha comido até agora tinha esse nome — mas eis a receita autêntica.O que é a autêntica paella valenciana?A paella valenciana é uma denominação protegida pela tradição, não por uma lei escrita — mas os valencianos defendem-na com um rigor que nada fica a desejar em relação aos regulamentos europeus mais rigorosos. Contém frango, coelho, garrofón, feijão verde achatado (ferraura), tomate, azeite, açafrão, paprica doce e sal. Nada mais.Sem marisco. Sem chouriço. Sem ervilhas. Estas variantes existem — e algumas são deliciosas — mas chamam-se «arroz de marisco» ou «paella mista». Em Valência, servir uma paella com chouriço é uma ofensa grave. Esta distinção não é snobismo: é a chave para compreender por que razão o prato é tão equilibrado e os seus sabores tão precisos.Sabia disso?A palavra «paella» designa, na realidade, a frigideira de aço com duas alças na qual se cozinha o prato — e não o prato em si. É o utensílio que dá nome à receita.Os ingredientes autênticos da paella valencianaA autenticidade de uma paella começa no mercado. Eis os ingredientes que, segundo a receita original da Comunidade Valenciana, são indiscutíveis:Arroz Bomba — ou Senia / Bahía (DOP Arroz de Valência)Frango de criação ao ar livre — pedaços com ossoCoelho de caça — elemento central da receita originalGarrofón — feijão branco grande e achatado DOPFerraura — feijão verde achatado valencianoAçafrão de La Mancha — pistilos inteiros, torrados e infundidosTomate fresco ralado — base do sofrito, sem pele nem sementesPáprica doce — adicionada fora do lumeAzeite virgem extra — quantidade generosa, não se deve pouparAlecrim fresco — queimado no lume no final da cozeduraQue arroz escolher para uma paella perfeita?O arroz é a alma da paella. E nem todos os tipos de arroz se comportam da mesma forma quando em contacto com o caldo a ferver. Os valencianos utilizam exclusivamente variedades de grão redondo cultivadas na zona protegida da Albufera de Valência — um lago costeiro cujas águas salobras e microclima particular conferem ao arroz qualidades de absorção únicas.O arroz Bomba (DOP Arroz de Valência) é a opção mais segura: absorve até três vezes o seu volume em caldo sem rebentar, o que lhe dá uma margem de erro preciosa. O arroz Senia é mais cremoso, mais arriscado, mas mais saboroso, segundo os puristas. Evite a todo o custo o arroz de grão longo, o basmati ou qualquer arroz «especial»: absorvem mal, cozinham mal em camada fina e estragam a textura.Regra de ouro:A camada de arroz na frigideira nunca deve ultrapassar os 2 cm. Isso garante uma cozedura uniforme e a formação do socarrat. Uma paella demasiado espessa é uma paella falhada.O sofrito: a base aromática que faz toda a diferençaNa tradição valenciana, o sofrito da paella é de uma sobriedade extrema — e é precisamente aí que reside a sua força. É composto apenas por tomate fresco ralado e paprica doce, cozinhados em lume forte no azeite até à redução completa. Sem cebola, sem alho (ao contrário de outras regiões de Espanha). Também sem ervas aromáticas nesta fase.O segredo reside no tempo de cozedura do sofrito: deve reduzir durante 8 a 10 minutos em lume médio-forte, mexendo constantemente, até que o azeite se separe do tomate e a mistura caramelize ligeiramente. É precisamente nesse momento que se adiciona a paprica doce — mas apenas 30 segundos antes de regar com o caldo, pois a paprica queima em menos de um minuto e fica amarga.«A paella é 80 % de caldo e 20 % de técnica. O resto é o amor pela horta.»— Ricard Camarena, chef valenciano com estrela MichelinA cozedura em fogo de lenha: o método tradicional valencianoA paella valenciana tradicional é cozinhada exclusivamente em fogo de lenha de laranjeira — a árvore rainha da região. As suas brasas produzem um calor intenso e regular, e a sua combustão liberta um aroma delicado que impregna subtilmente a paella. Numa cozinha urbana, um queimador a gás de grande diâmetro (ou um paellero especial) é a alternativa aceitável.Controlar o fogo é uma arte em si mesma. Muito forte no início para selar as carnes e reduzir rapidamente o caldo, depois progressivamente mais suave para que o arroz absorva ao seu ritmo e forme o socarrat sem queimar. Nos concursos de paella valencianos, os participantes passam anos a dominar esta coreografia do fogo.O socarrat: como conseguir o fundo crocante perfeito?O socarrat é o Santo Graal da paella. Esta camada de arroz ligeiramente caramelizada e estaladiça, que se forma nos últimos minutos de cozedura, é considerada pelos valencianos como a melhor parte do prato. O seu nome deriva do valenciano «socarrar» — queimar ligeiramente.Para o conseguir, o segredo é aumentar o fogo no final durante exatamente 60 a 90 segundos, até se ouvir um ligeiro estalido. Sem fumo preto — isso significa que já é tarde demais. Se não houver silêncio absoluto — isso significa que ainda não está pronto. O único indicador fiável é o seu ouvido. Deslize uma espátula por baixo da borda do arroz: se sentir uma ligeira resistência e ouvir um estalido, o socarrat está pronto.Erros a evitar para não estragar a sua paellaMexer o arroz depois de o ter adicionado. Depois de incorporado e distribuído uniformemente, nunca mais se toca nele. Mexer liberta o amido e transforma a paella num risoto.Utilizar um caldo industrial sem o personalizar. O caldo deve ser caseiro, feito com as sobras de frango e coelho, reduzido e bem temperado. É aí que reside 80 % do sabor.Tapar a frigideira durante a cozedura do arroz. A paella nunca se tapa. A tampa cria vapor que altera totalmente a textura do arroz e impede a formação do socarrat.Deixar a paella repousar mais de 5 minutos. O arroz continua a cozinhar com o calor residual. Passados 5 minutos, os grãos ficam demasiado cozidos. Sirva imediatamente.Adicione limão diretamente sobre toda a paella. O limão pode ser servido à parte — mas alguns valencianos vão olhar-lhe de lado mesmo por isso. Nunca se espreme durante a cozedura.Receita completa da Paella Valenciana: passo a passoPaella Valenciana — Receita original4 pessoas · Preparação: 20 min · Cozedura: 50 min · Dificuldade: médiaIngredientesArroz Bomba — 400 gFrango (em pedaços) — 500 gCoelho (em pedaços) — 400 gFeijão verde achatado — 200 gFeijão-garrofón (seco) — 150 gTomate ralado — 200 gCaldo de frango — 1,2 LAçafrão — 0,3 gPáprica doce — 1 colher de cháAzeite virgem extra — 100 mlSal — quantidade necessáriaPreparação1. Aquecer o azeite e dourar as carnesNuma frigideira em lume forte, aqueça o azeite e doure os pedaços de frango e de coelho até obterem uma cor intensa em todos os lados. 15 a 20 min.2. Refogar os legumesJunte o feijão verde e os feijões garrofones escorridos. Refogue durante 5 minutos juntamente com as carnes, mexendo regularmente.3. Preparar o sofritoAfaste as carnes para os lados. No centro, adicione o tomate ralado e cozinhe durante 8 minutos até reduzir completamente. Adicione a paprica doce e misture durante 30 segundos.4. Adicionar o caldo e cozinhar o arrozDeite o caldo quente com o açafrão infundido. Deixe ferver vigorosamente durante 5 minutos. Adicione o arroz em cruz ou a chover, distribuindo-o uniformemente. Não mexa mais.5. Controlar a cozedura e criar o «socarrat»Cozinhe em lume forte durante 8 minutos e, em seguida, reduza gradualmente o lume. Quando o caldo estiver absorvido (~16 min), aumente o lume durante 90 segundos para criar o socarrat. Sirva imediatamente.Onde comer a melhor paella valenciana em Valência?Se estiver em Valência e quiser provar uma paella autêntica preparada por verdadeiros mestres, há vários locais imperdíveis. O bairro de Las Arenas (Playa de la Malvarrosa) acolhe restaurantes especializados que conseguiram manter a tradição intacta ao longo de várias gerações. Para uma experiência autenticamente rural, os restaurantes da Albufera — nomeadamente em El Palmar — oferecem paellas cozinhadas exclusivamente em fogo de lenha de laranjeira ao almoço, pois a paella é um prato de almoço, nunca de jantar.A España Gourmet recomenda evitar os restaurantes que servem paella durante todo o dia, todos os dias, ou que exibem fotografias a cores da sua paella num cartaz de plástico à entrada. A verdadeira paella tem de ser merecida.